sábado, 12 de setembro de 2009

Encontrando Morpheus

Já faz muito tempo que tento encontrar Morpheus.
É irônico, pois apesar de minha obsessão em acha-lo, eu nem me lembro de quando foi a última vez que sonhei.

Está chovendo. Talvez a compreensão seja como a chuva...
Por mais que haja a previsão não é certo que irá chover.
E quando chove, a chuva é intensa. Não que ela molhe todos os lugares, mas naquilo que a chuva toca ela molha.
Quando acho que vou compreender, não sei se de fato vou...Mas quando compreendo, não sinto que compreenda tudo...Mas pelo menos algo, uma parte deste tudo, eu tenho compreendido por inteiro.

Talvez seja por isso que eu ainda procure Morpheus.

...Hum! Esse lugar, sempre que venho aqui me traz lembranças. Um homem, que me ensinou a compreender a diferença entre o sonho e pesadelo.
 
Alpha: Pesadelo em vida. 
Certo dia, desembarquei nessa mesma estação. E lá estava ele, todos passavam pelo homem como se não estivesse lá. Aparentava ser alguém de meia idade, tinha uma barba escura e era calvo. Ele estava vestido em trapos e exalava um cheiro forte. Então ele veio a mim e disse:
- Por favor, compre algo para eu comer?
- Tudo bem, venha comigo.
Eu respondi para o homem. Ele me seguiu até uma lanchonete da própria estação. Quando chegamos lá eu disse:
- Pode escolher o que você quiser.
O rapaz que atendia olhou de lado para o homem. Notei que o homem estava com dificuldade
para ler, e sugeri algumas coisas para ele. O homem continuou apenas a olhar para a lanchonete, então disse para mim o que queria. E eu falei para o atendente:
- Ele quer um cachorro quente completo e um sulco de laranja.
- Obrigado.
Disse o homem.
O atendente preparou o lanche, e quis o entregar a mim. E eu disse:
- Não é para mim, é dele.
O atendente suspirou e se dirigiu ao homem. O homem pegou o lanche, se sentou em um banco perto dali, e eu me sentei ao seu lado.
- ...Sabe eu não fui sempre assim.
Disse o homem enquanto comia.
- Assim como?
Perguntei a ele.
- Há alguns anos atrás eu tinha uma família, um emprego, uma casa...Sabe eu sou formado em relações internacionais.
Respondeu o homem.
- Hum!...Então o que houve?
Perguntei pensativo. O homem olhou para cima como se pudesse ver sua história projetada nas nuvens, e como se tivesse voltado no tempo me disse:
- Como em todas as manhãs da semana todos levantavam cedo. Minha filha tomava café com leite e pão com manteiga, ela adorava aquilo. Minha esposa preferia cereais
com frutas e mel...Eu, como sempre comi de mais, comia os dois...
Disse o homem abrindo um sorriso.
- Mas aquela manhã , por mais que parecesse como todas, não era...Foi perfeita, apesar de toda a pressa em ir trabalhar minha esposa me olhou nos olhos. Apesar da minha pressa em ir trabalhar abracei minha filha, apesar da pressa dela ir para a universidade segurou nossas mãos e disse que nos amava. E todos sorrimos.

Perfeito como o cair das pétalas da Sakura ao vento. Como a dialética entre a vida e a morte pode ser tão maravilhosa...E cruel.
Uma lágrima escorreu no rosto do homem, e eu disse:
- Você não precisa continuar se não o quiser...
- Não, eu preciso contar a alguém minha história...E esse alguém tem que ser você , porque você me escuta.
O homem me respondeu de prontidão. Eu fiquei em silêncio, ele voltou a olhar para cima e continuou dizendo:
- Era sexta feira, o último dia de aula de minha filha, ent o decidimos viajar. Eu só podia ir no sábado, mas disse que elas poderiam ir antes por causa do trânsito...Eu deveria ter ido com elas.

Minha filha chegou em casa e decidiu arrumar as malas. Estranho, geralmente eu reclamava de ela deixar sempre para última hora, no entanto a ajudei a fazer as malas como eu fazia quando ela era pequena. Me lembro que sorrindo ela me disse:
- Pai, você não precisa mais me ajudar fazer a mala, não sou mais criança!
E sorrindo de volta eu respondi:
- É claro que não é, mas talvez eu seja o mesmo pai.
Quando estávamos terminando de arrumar sua mala minha esposa chegou e nos encontrou no quarto de minha filha, olhou para nós e sorrindo disse:
- Ainda bem que minha mala já está pronta, se não iria precisar de vocês dois para me ajudar.
- Você está completamente certa.
Eu disse a abraçando. Ela olhou em meus olhos, acariciou meu rosto, e me beijou. Não foi o beijo de sempre, mas como todo beijo especial, foi único.

O beijo de sempre termina nos lábios, um beijo especial leva a outro mundo.

As ajudei a levar as malas até o carro e carrega-lo. Quando terminamos minha filha me abraçou e disse:
- Pai, queria que você fosse com agente...Te esperarei lá.
- Nós te esperaremos lá.
Disse minha esposa nos abraçando.

A Sofia tinha uma pele escura como chocolate, e era doce como um. Lembro da primeira vez quando eu e minha esposa a vimos, ela tinha oito anos. Ha! Ha! Quando a diretora do orfanato disse que nós seriamos os seus pais, ela respondeu "eles são brancos"...É levou um tempo para ela se acostumar com a idéia, e talvez nós também. Mas desde a primeira vez que a vimos, sentimos que ela tinha de ser nossa filha.
Seus olhos eram castanhos, bem escuros. Tinham o formato de uma amêndoa. Ela tinha o cabelo enrolado, e adorava usar creme, pois dizia que se não usasse ficaria parecendo um espantalho. Baixinha como a mãe, não ligava para o peso, ela estava em forma, mas eu as vezes tentava provoca-la a chamando de fofa.

...Angela. No dia em que nos conhecemos tive a impressão que já a tivesse visto antes. Mesmo que tivesse certeza disso, ela só fez sentido em minha vida naquele momento, pois foi quando meu coração estava aberto para ela. Angela tinha a pele suave como a areia fina e formas como as de dunas do deserto criadas pela ação do vendo. Seus olhos levemente puxados denunciavam sua origem oriental. E ela como o deserto, podia ser suave e também devastadora... Hum!...Ela era uma mulher forte. Ainda não entendo bem porque passei a ama-la, mas sei que uma das coisas é a força que ela ganhava pela habilidade de ser flexível.
Engraçado, ela me pediu em casamento no mesmo dia que eu ia pedir sua mão. Me lembro até hoje... Eu me ajoelhei e ela disse antes de mim "Casa comigo?" me entregando um anel, e eu fiquei com cara de bobo escondendo o anel que eu ia dar para ela.

Outra lágrima escorreu no rosto do homem, ele olhou para mim e depois voltou a olhar paras as nuvens e disse:
- Naquele dia era um por do sol como esse. O crepúsculo do sol latente por de trás das nuvens ressaltava o rosto das duas. Lindo. Perfeito. Como as pétalas da Sakura ao vento.

A noite veio inerente ao por do sol.
Cheguei em casa após o trabalho, e de repente tocaram a campainha, atendi pelo interfone. Uma voz que eu nunca tinha ouvido disse:
- Senhor, sou policial, houve um acidente. Preciso falar com o senhor.
Olhei através do olho mágico na porta, era um policial e havia uma viatura estacionada. Abri a porta, ele olhou para mim e perguntou:
- O senhor conhece uma mulher chamada Angela Hirome?
- Sim, é minha esposa. O que houve?
Perguntei a ele assustado. O Policial olhou para mim calado, e disse:
- Senhor, ela estava acompanhada de quem?
- De minha filha. Diga-me o que houve!?
Eu disse ao homem já irritado. Então o policial falou:
- Elas estavam indo para o litoral, e durante a decida já estava a noite. Sua esposa estava seguindo com o carro a direita e um ônibus fretado a ultrapassava pela esquerda, de repente o motorista do ônibus avistou uma pessoa na pista, e para desviar...Ele fechou sua esposa, ela não tinha espaço para jogar o carro, e nem tempo para poder agir. Elas foram lançadas serra abaixo, era muito alto...E com o impacto o carro explodiu...Nós não conseguimos encontra-las...A explosão deve ter...Sinto muito, lamento senhor...
O policial colocou a m o sobre meu ombro. De repente deixei de sentir minhas pernas e cai sentado no chão e chorei...

A vida delas se foi como a luz do sol ao cair da noite. E como a luz elas se foram sem deixar vestígios, apenas as trevas. Desde aquele dia tornei-me um homem que sobrevive as trevas tentando passar os dias em claro...mas no fim, o sono vence, e das trevas surge o sonho. Sempre o mesmo sonho, vejo o rosto delas iluminadas pelo crepúsculo do sol por traz das nuvens.

Então deixei o trabalho, deixei minha casa, de alguns amigos não precisei me afastar, pois eles se afastaram de mim conforme mudei.

Certo dia fui até a rodoviária, e lá encontrei o guiché da empresa do ônibus envolvido no acidente. Eu comecei a gritar:
- Assassinos, vocês levaram minha família. Eu nunca poderei realizar meu sonho!
- Segurança!
Uma voz gritou. É claro, o que mais eles iriam dizer? Fui arrastado para fora como lixo.
Eu não podia nem ao menos culpar alguém, e nem como me vigar. Mesmo se a empresa fosse culpada como eu iria me vingar de uma corporação internacional.

O homem voltou a olhar para mim, lágrimas ainda escorriam de seu rosto e ele indagou:
- Deus como sinto falta delas. Já até pensei em tentar recomeçar, mas o sonho persiste e não consigo. Um sonho que não pode ser realizado...Isso é um pesadelo.
- ...Olha, estou sem palavras...É uma história e tanto. Aprendi muito com ela...Você gostaria de mais alguma coisa?
Perguntei para ele. O homem limpou as lágrimas do rosto, mordeu o sanduíche, mastigou por algum tempo e sorrindo disse:
- Obrigado...Eu apenas gostaria de algumas roupas limpas.
- Está bem, eu vou embora agora, mas amanhã estarei aqui nesse mesmo horário com suas roupas, pode ser?
Eu disse para o homem olhando em seus olhos. E ele disse:
- Sim.
Estendi minha mão para me despedir dizendo:
- Sou Runouri e você ?
- Mas minha mão está suja.
Disse ele exitando.
- Não tem problema...
Respondi sorrindo. O homem me cumprimentou e disse:
- Obrigado. Sou...

No dia seguinte voltei conforme havia combinado com ele. Mas ele não apareceu. Continuo a passar por aqui desde aquela época, pois é um caminho corriqueiro meu, mas nunca mais o vi.

Ele podia estar mentindo? Talvez...ou pode ter mentido algumas coisas?...Levando em conta as circunstâncias e os acontecimentos não acho que ele tenha motivo para mentir sua história. No entanto de qualquer forma aprendi algo muito verdadeiro, a diferença entre um sonho e um pesadelo. E para além disso, como um sonho pode se tornar um pesadelo.

Lutamos por nossos sonhos, para que eles não virem nossos maiores pesadelos, ou porque acreditamos que possam se realizar...Ou ainda porque não queremos aceitar que os sonhos não possam se realizar.

Mas por mais que aquele homem lutasse, seu sonho não iria se realizar. Por isso ele não lutava mais, esse era o seu pesadelo em vida. O sonho dele tornou-se o éden inalcansavel em vida...

Hum!...Talvez ele as tenha encontrado finalmente.

...Tsi! O tempo não está nem um pouco como naquele dia. Essa chuva não para...Finalmente o meu ônibus chegou.

por Aionios Devir.

Continua...